A História dos Camarros

Os Camarros estão em actividade desde os anos 70, embora a designação do clube, Camarros, esteja em uso só há poucos anos. No início eles estavam cá. Emanuel Sacramento, Artur Machado, Paulo Renato Garrochinho e Rogério Baltazar, entre outros, foram os primeiros nomes a serem marcados na história deste clube. Hoje, temos o resultado da nossa conversa com um dos primeiros desbravadores e, também, um dos primeiros dirigentes deste grupo – Rogério Baltazar, totemizado e conhecido como Caimão.

Entrevista com Rogério Baltazar – Caimão

9/3/2006 – via msn (entre as 21H45 e as 24H23)

Camarros – Pensei que seria bom começarmos pelo princípio do movimento dos Desbravadores em Portugal e, como o Rogério esteve nesse começo, talvez pudesse explicar como tudo começou.

Rogério Baltazar– No início de 1976 surgiu no Barreiro o jovem Emanuel Sacramento, proveniente de Angola e, apesar de viver em Lisboa na Av. Almirante Reis, vinha todos os Sábados e Domingos à igreja do Barreiro para desenvolvermos as actividades de Desbravadores.

Mas a verdade é que foi o casal Steell, proveniente dos Estados Unidos que trouxe a ideia dos Desbravadores para Portugal nos anos 75 – 76.

Ora, nesta altura aparecem outros jovens tais como Manuel Vieira, na região de Lisboa, Victor Alves na região do Porto, Beto Pereira da Silva, na região de Coimbra, mas proveniente de Moçambique, que se tornaram os grandes impulsionadores das actividades de Desbravadores em Portugal.

C – Como foi que se fez a transição entre os Missionários Voluntários (MV) e os Desbravadores?

RB – Essa transição foi deveras muito rápida, ou seja, a designação MV aparece na boca dos líderes mais velhos tais como o Pastor Mendes que esteve no Barreiro, o Pastor Carlos Esteves, mas como o Manuel Vieira assume o Departamento da Juventude em Lisboa no tempo do Pastor Morgado, que na altura era o Presidente, a linguagem dos MV praticamente desaparece e começa-se logo a usar a designação dos Desbravadores.

C – Isto quer dizer que a mudança se passa apenas a nível de nomenclatura?

RB – Yes. Os jovens que na altura amavam estas actividades começaram logo a abraçar a designação Desbravadores e esqueceram a designação MV, pois não tinha nada a ver connosco. Apenas falavamos nela como referência do passado e não do presente.

Não esquecer que o Manuel Vieira, o Lobo Cinzento tinha estado em Itália e era o responsável técnico da nossa rádio AWR. Ele estava muito ligado às activadades dos Desbravadores e, como tal, a ele muito agradecemos, pois muito contribuiu para a consolidação dos Desbravadores em termos de Organização. Ele foi o 1º departamental da Juventude nesta altura.

C – Apenas queria uma explicaçãozinha acerca da importância da designação Desbravadores em detrimento de MV.

RB – A designação MV, aparece como resultado do trabalho iniciado em 1879 até 1901, quando o movimento é reconhecido pela associação geral inicialmente sob a coordenação do Departamento da Escola Sabatina de então. Em 1907, e devido ao trabalho desenvolvido, o programa é adoptado pela Conferência Geral, no concílio geral em Gland, na Suíça. Ora, nesta altura as actividades desenvolvidas pelos MV eram mais de cariz Missionário, ou seja, com muito poucas actividades fisicas.

A partir de 1910, houve da parte de alguns jovens a vontade de se unirem aos escoteiros, mas tiveram algumas dificuldades, pois os nossos principios ao nível da alimentação, do Sábado e de outras práticas não se ajustavam. Então, começaram a aparecer vários grupos a organizarem-se no sentido de juntamente com as actividades espirituais desenvolverem mais actividades físicas. E é em 1919, isto tentando abreviar o mais possível, que aparece Arthur Spalding, conhecido como o pai dos Pathfinders, ou seja, Desbravadores.

Nesta altura, o grupo de juvenis deixa de estar sob a responsabilidade do Departamento da Escola Sabatina e passa a pertencer ao Departamento dos Juvenis.

Como tal, nos Estados Unidos o nome MV vai-se diluindo e pensa-se que o nome de Desbravadores surge em 1928, após o 1º acampamento da Associação do Sudoeste da Califórnia, onde um dos oficiais da associação, lhes contou a história de John Fremont, um explorador americano, ao qual se referiu como Desbravador. Outras fontes atribum o nome ao local do 1º Acampamento conduzido pelo pastor John Hancock em 1946 – Pathfinders. Camp ( Campo dos Desbravadores em portugues )

Será que respondi alguma coisa?

C – Claro que sim.

RB – Com vês, mesmo a nossa história tem lacunas, pois penso que na altura não se escrevia muito. Tudo foi acontecendo.

C – Passemos agora para o Barreiro. Foi então com a chegada do Emanuel Sacramento que os clubes se iniciaram no Barreiro.

RB – Exactamente!

C – Então, e que influência teve o arranque na Igreja de Lisboa Central com o casal Steell, para que os Desbravadores surgissem aqui, do outro lado do Tejo?

RB – Tal como nos Estados Unidos surgia um grupo aqui e outro ali, em Portugal aconteceu o mesmo. Enquanto o casal Steell começava a juntar os jovens em Lisboa, em outros pontos de Portugal surgia a uma velocidade relâmpago outros Clubes. Lisboa tinha os Steell, em Coimbra o Beto Pereira da Silva, no Porto o Victor Alves, depois apareceu no Barreiro o Emanuel, etc, etc. Mas, no Barreiro, o Emanuel não tem nada a ver com o Casal Steell, ou seja, são escolas diferentes. O Emanuel vinha de Angola, e os clubes apareceram e foram-se desenvolvendo.

Não esquecer que o 1º curso de formação é dado em 1980, na Figueira da Foz, e como tal tudo se começou a espalhar pelo país.

C – Fale-me um pouco do início dos primeiros tempos aqui no Barreiro. Como foi o arranque?

RB – Após o Emanuel começar a organizar o Clube, iniciou com os seguintes jovens: Artur Machado, Paulo Renato, Rui Teixeira, Teresa Teixeira, Samuel Margarido, Rogério Baltazar, e mais 2 ou 3 que agora não me lembro. Mas era um pequeno grupo. E em 3 de Julho de 1976, fez-se a 1ª Cerimónia de Investiduras, na qual, e com a presença do Pastor Morgado como Departamental de Jovens, o Emanuel passou de Guia a Líder. Nós fizemos a promessa e a Classe de Amigos.

Em 31 de Outubro do mesmo ano, efectuou-se a 2ª Cerimónia de Investiduras e fizemos a Classe progressiva de Companheiros (actualmente, Mensageiros). Em 5 de Outubro de 1977, fizemos a 3ª Cerimónia de Investiduras e fizemos a Classe Progressiva de Pesquisadores.

Em 14 de Fevereiro de 1981, agora com o Manuel Vieira como departamental de Jovens, fez-se a 5ª Cerimónia de Investiduras e fizemos a Classe Progressiva de Pioneiros e, alguns, de Guia.

É neste Ano que se dá o grande desenvolvimento dos Desbravadores em Portugal. Ou seja, só para teres uma ideia no ano de 1981, dão-se os seguintes eventos:

  1. Escola de Formação de Desbravadores de 4 a 8 Dezembro, com a presença do Pastor Figols em Oliveira do Douro;
  2. 1º Acampamento Regional de Desbravadores em Mafra;
  3. Acampamento Internacional de Desbravadores – Camporee/81 Sud France – Monoblet;
  4. Acampamento de Desbravadores na Figueira da Foz.

C – Noto aí uma lacuna entre a 3ª e a 4ª investidura. De qualquer forma, em 76 e em 77 estavam em força, mas a 5ª investidura só surge em 81. Houve alguma quebra pelo meio?

RB -Não, o que acontece é que, nesta altura o Emanuel se retira e ficamos nós o Artur, Renato, Rui e Rogério a chefiar o grupo do Barreiro. Neste período as nossas classes pararam um pouco e preparavamos outros jovens a fazer as suas. Ou seja, eu começo a liderar o grupo como director em 1981, até 1983. Durante este tempo participamos em muitas actividades, desde acampamentos locais até actividades exteriores com outros grupos.

Depois no ano de 1984 caso-me e no ano de 1986 começo um novo grupo, agora em Salvaterra de Magos, até 91 sempre como director. Em 19 de Abril de 86 sou investido a Líder pelo Pastor Carlos Costa, Departamental da Juventude, e o Pastor Carlos Esteves, pastor local de Salvaterra de Magos.

C –Apenas para que a sua biografia fique mais completa, pode dar-nos mais alguns dados referentes ao seu baptismo, totemização e experiência como líder?

RB – A data do meu baptismo na igreja do Barreiro foi em 24 de Dezembro de 1978. A data de totemização com o nome de Caimão foi em 3 de Dezembro de 1989 na Figueira da Foz.

Em 11 de Março de 1995, recebi o 1º Master de Actividades Náuticas pela mão do pastor Rogério Nobrega (Departamental da Juventude Adventista nessa data). Em 2 de Março de 1997, recebi a insígnia de Animador de Jovens pelo mesmo pastor. Nos anos de 90 a 97 membro do Conselho Regional da zona de Lisboa como responsável pelos Desbravadores. De 94 a 97 fui formador na escola de formação da Juventude Adventista.

C – Que memórias guarda do tempo em que viveu este projecto aqui no Barreiro, que nos queira contar?

RB – As memórias são do mais excelente que podemos passar em conjunto pois, nestes anos, tivemos pessoas que nos ajudaram muito em termos espirituais. Além dos pastores, também tinhamos jovens mais velhos e alguns casados, que nos levavam para acampamentos tais como o Mendes, o Alves, o Mário Oliveira… e existe um trabalho que, como jovens, não podemos esquecer que foi o Alves na altura nos ter levado a estudar a Bíblia e os livros da irmã White. Neste momento crescemos muito em termos espirituais e houve quatro jovens que se tornaram inseparáveis: o Artur e o Renato, que hoje são pastores, o Rui e eu. Foram momentos muito bons.

Por outro lado, a igreja do Barreiro era muito activa. Nestes anos, existia um grupo dos mais velhos tais como o Geménio Macedo, Carlos Alho, Zé Alho, Joaquim Mendes, Sebastião Alves, Carlos Macedo, Mário Oliveira, Leonor Mendes, Lena, e sei lá… tantos outros que davam uma dinâmica muito grande à igreja.

C – Que mensagem deseja deixar aos nossos jovens?

RB – Queridos Jovens, a grande diferença entre os Escoteiros e os Desbravadores é que nós temos um Deus Maravilhoso que nos ama, nos conhece e nos trata pelo nosso nome; um Deus que acredita em nós pelo valor que Ele nos dá e nos incentiva a subir cada vez mais alto rumo à excelência.

Vale a pena conhecê-lo. É verdade que é um grande desafio, mas os jovens gostam de desafios. Por isso queridos jovens tudo quanto possais fazer em vossa vida seja para honrar o nome dAquele que um dia vos criou e vos trouxe à existência – Jesus – e para honrar o Clube a que pertenceis os – DESBRAVADORES.

Pois Jesus no seu santo livro disse ” Honrarei aqueles que me honram”. Um abraço deste que vos ama.

C – Caimão, agradecemos-lhe muito todo este tempo que nos dedicou, e o facto de ter partilhado connosco todas estas recordações. É muito importante que os jovens conheçam as suas origens para que não se percam no mesmo caminho que percorrem.

RB – Foi o que foi possível. Espero ter ajudado de alguma maneira. Obrigado. Tudo o que precisarem de mim estou à vossa disposição para vos ajudar.

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